“ CONVERSANDO NO BAR ”
Paulo Oliveira
Lembrando Milton nascimento em “ Saudades dos Aviões da Panair’’, por várias vezes eu disse aos outros e a mim mesmo que a “cerveja que tomo hoje é apenas em memória dos tempos da...’’ Paidéia.
Pois esses dias, num encontro com vários amigos em minha casa num final de tarde, a Paidéia tornou-se o principal assunto. Estavam ali não menos que alguns dentre os seus assíduos frequentadores e então conversamos bastante, exaltando uma saudade confessa, e relembrando os incontáveis momentos vividos ali, e assim passamos enorme parte do tempo praticando um verdadeiro exercício memorial proustiano.
E por isso, eu gostaria, pela memória, de lançar um breve olhar sobre aquele lugar, sobre todas as coisas que pudemos fazer ali. E foram muitas. Shows, festivais da canção, saraus, concursos de conto e poesia, monólogos teatrais, livros, discos, projeção de filmes e antiguidades. Também eventos como o Dia Mundial do Meio - Ambiente, do Trabalho, lançamento de livros, exposição de fotos, e um inesquecível Tributo ao Rio dos Sinos. Os shows na Casa de Cultura de Esteio, reunindo artistas da cidade, a Feira Cultural Quadra II; a inserção em movimentos sociais, com mais de trinta participações nas Feiras do Livro, em vários municípios, a luta pela preservação do Seminário Claretiano, a Carta Paidéia, com subsídios para uma política cultural, o embrião da Parada Livre de Esteio, além do impagável Mesa de Bar, programa de rádio com debates e comportamento transmitido ao vivo da Paidéia pela Rádio Tradição FM.
Meu Deus! Como foi possível fazer tudo isso num Bar?
E as grandes e intermináveis discussões políticas, filosóficas, existenciais ou inúteis que atravessaram noites, numa generosa alquimia entre conhecimento e vivências; entre o intelecto e o empírico; entre o profundo e o pueril. Teorizávamos, em juízos Kantianos, sobre as coisas mais complexas e díspares sem nenhum compromisso de conclusão ou acordo, e tudo sob o olhar atento e respeitoso dos livros que vigiavam silenciosos das estantes até o sol, intruso e belo, bater à porta para nos mandar embora.
Ah Sim, e tinha bebida, muita bebida para o escândalo dos conservadores que vociferavam destilando veneno pelas redes sociais afirmando não ser possível nem aceitável discutir ou fazer cultura num bar. Nossos detratores, em seus extremos delírios de ciúme e burrice, desconheciam a infinidade de movimentos culturais de arte, ou mobilizações políticas, surgidas em bares e cafés espalhados por todo o ocidente. Movimentos que revolucionaram para sempre tanto a arte, como a política do século XX e continuam revolucionando e apontando caminhos no século XXI. Pois fizemos e vivemos nossa parte celular nesta história cultural. Polemizamos tanto, que este ágon permanente gestou uma liturgia agregadora, criadora de tantas amizades generosas entre artistas, funcionários, habitués, além dos frequentadores ocasionais, tecendo laços de fraternidade tão íntegros que muitos deles permanecem até hoje.
Entretanto no fundo, todos nós sabíamos que a Paidéia não possuía o perfil de um comércio destes, feitos para dar lucro. Não fomos e nem nunca seríamos simplesmente um Bar, um local qualquer onde se bebe, come, mata-se um pouco o tempo e depois vai-se embora. Não. Não era. Era muito mais do que isso. Fomos, na verdade um espaço de Cultura e Arte no pleno exercício de sua experimentação inquieta, e era justamente nisso que residia nossa identidade: a permanente exploração de ideias, formas, volumes e possibilidades, assim como as inumeráveis alterações na concepção do espaço físico e suas mutações fomentava, acionava e enriquecia as nossas faculdades criadoras.
Aquela construção permanente nos movia e desafiava, fomos apolíneos e também dionisíacos. Era a instalação do duplo caráter desta antinomia, tão essencial ao espírito humano, que nos fazia caminhar, do equilíbrio à embriaguez, da emoção à forma, e da sanidade à loucura, como se não passássemos de alegres ou angustiados saltimbancos movidos intensamente pela paixão, feito os personagens - peregrinos de um Ballet de Pina Bausch.
Esses dias Contardo Calligaris, num programa de entrevistas no rádio, ao ser perguntado sobre como poderia definir o que era a sua vida, saiu-se com uma resposta tão interessante quanto reveladora. Disse ele, que gostaria de poder afirmar que a sua vida era uma boa história, que ele podia contar para ele mesmo. Para mim, a Paidéia é exatamente isso!
E não é que este texto acabou transbordando de saudosismo ufanista, subvertendo inclusive a ordem e a coesão textual para soar mais como um desabafo melancólico? Tudo já está no passado, bem o sei, e não perdi a noção da temporalidade. Sei lá, acho até que muito mais haveria para ser escrito. Mas, afinal, o que é a saudade, senão as nossas lembranças emocionais resgatáveis apenas pela memória? (Proust de novo).
Paulo, esqueceste de comentar que a Paideia foi sem dúvida um ponto de encontro e de referência em Esteio. Quantos amigos que não moravam nas redondezas se encontravam ali para matar saudades...A quantos colegas de outras cidades que nunca tinham entrado em Esteio além da avenida principal,tiveram ali na Paideia,seus sonhos de consumo realizados, entre livros, conversas e bebidas...Com toda a certeza foi um lugar de deixar saudades imensas e amizades eternas.Beijos e parabéns por esta iniciativa.
ResponderExcluirEdilene.
bah....me bateu uma saudade enorme dessa PAIDÉIA, paidéia essa que até hj trago ela no peito,visto com maior orgulho minha camiseta Theatro, Bar Paidéia.aonde vou com ela todos perguntam, e ai.... vai abrir de novo????? quando tu vais fazer uma festa "Remember Paidéia", só digo que faço a festa se o nosso mentor Paulo Oliveira, dono de discurso impecável, para defenir o que é Esteio: chego ate ele falar:CIDADE DORMITÓRIA, MORRAM COMENDO XIS,Cidade das Farmácias ahahahahah, muito boa as lembranças.fico feliz em fazer parte da familia Paidéia,bjs amigo, e quem sabe um dia a gente não faça mesmo uma Remember...
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