Paulo Oliveira
Por mais de três séculos conduzimos nossa política e a nossa economia apoiadas num dos maiores e mais infames crimes da história: A Escravidão. Vários povos negros d'África foram alçados à condição de simples mercadoria traficada, para ser comercializada em lugares, os mais longínquos, desencadeando uma das mais terríveis diásporas que a humanidade já teve notícia.
Seres Humanos foram caçados e arrancados de seus lares e de suas famílias. Vários reinos, alguns verdadeiras civilizações efervescentes e prósperas no interior da África, com intensas relações sociais, culturais, políticas e econômicas foram extintos e suas populações dizimadas ou capturadas tanto pelos muçulmanos quanto pelos cristãos, que rapinavam pessoas, ora sob as bençaos da lua crescente, ora sob as bençaos da cruz. Aqueles que sobreviviam a essas investidas, eram capturados e jogados como objetos de saque nos navios imortalizados pela poesia condoreira de Castro Alves.
Depois de roubados à sua terra, e levados para longe, eram obrigados a trabalhar até a morte nas mais pesadas tarefas. Também estavam impedidos de prestarem culto aos seus deuses, nem a eles suplicarem, estando privados até de vivenciarem o sagrado da sua cultura, já que eram obrigados a adorarem a um deus estranho e sem nome, ao deus dos seus algozes, a um deus que simplesmente não os escutava e tampouco se importava com eles.
Assim, não é possível nos escondermos mais sob a capa cínica do nosso preconceito indisfarçável erigido numa falsa democracia racial. Esse é o mito que temos sustentado para ocultar nosso racismo transformado em eufemismos verbais com um rosário de pérolas hipócritas, travestidas de politicamente correto, para assim criarmos uma ilusão de que ao pronunciarmos as palavras certas, nos momentos e lugares certos, estaremos fazendo a nossa catarse política com todas essas jaculatórias falsas, para com elas, podermos purgar definitivamente as feridas ainda expostas do nosso crime histórico.
Possuímos sim, uma imensa dívida social com toda a população negra, e precisamos resgatá-la o quanto antes e não importa o quanto isso nos custe. Seja pela política de cotas para vagas nas universidades, seja em quaisquer outras cotas sociais, pois não é possível simplesmente virar as costas para o passado e pedir desculpas a um povo que, na escravidão, sustentou e ajudou a erguer com o sangue e as lágrimas de suas dores, tudo aquilo que somos hoje. Não há como apagar esse passado apenas com discursos e homenagens assépticas. A dor é muito mais profunda e já se encontra impregnada em cada átomo da realidade que nos cerca.
Portanto torna-se absolutamente necessário admitir que todo este horror praticado contra um povo e sua civilização exigem reparação.
E muito já se disse, cantou e escreveu sobre a importância do negro para a gênese daquilo que nos acostumamos a chamar de nação brasileira. Contudo, os porões sinistros dos navios que vinham carregados de além mar, não traziam somente homens, mulheres e crianças acorrentadas. Com eles também vinham os seus costumes, a sua arte, e a sua religião. Vinha com eles toda a cultura de um povo dotado de alta sensibilidade, humanismo e sabedoria.
Mas nossa dívida vai bem mais além e passa pelo verdadeiro reconhecimento da importância que tem em nossa evolução cultural, todas as expressões da Cultura Negra e o quanto essas expressões e suas idiossincrasias se inseriram no que culturalmente somos hoje.
E conhecer a Cultura Negra não se restringe a um olhar às expressões de maior apelo midiático ou folclórico, ou para a sua mitologia riquíssima. Há também uma vasta produção intelectual em todas as áreas do conhecimento, do popular ao erudito e, em todas as artes. Exemplos ícones como o Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento em 1944 com expressiva produção teatral e de grande qualidade estética, como o jornal Alvorada fundado em 1907 por intelectuais negros em Pelotas, uma das primeiras manifestações da imprensa negra no país, o I Congresso Nacional do Negro realizado em Porto Alegre em 1958 com delegações de vários estados brasileiros são passos de uma história de mobilização, consciência e cidadania, que já está sendo contada.
A cultura Negra, portanto é a consciência crítica de um povo sensível, é o pensamento expresso em resistência e afirmação. Ode e elegia; o lírico e o épico; o lúdico e a luta que são os resultados de uma trágica saga que jamais deverá ser esquecida.
Por isso, lado a lado quero que saibas: Meus olhos são negros como os teus. Teu sangue, vermelho como o meu. E o amor que nos move será tão intenso quanto for possível amar. Então como no poema de John Donne “não me perguntes mais por quem os sinos dobram. Eles dobram por nós”.
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