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O ESTÔMAGO DE AÇO DA POLÍTICA


                                                         Paulo Oliveira



          Está no ar o horário da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, e ao vê-lo, minha decepção com a política partidária transforma-se em raiva e a raiva em náuseas. Não vou nem me debruçar sobre o que está em jogo no processo eleitoral, tanto sob a perspectiva da luta de classes quanto sob a perspectiva do mero gerenciamento do capital e da ordem dominante.

        Para não me estender demais, quero falar apenas do que constato nos programas de televisão apresentados, tanto pelos partidos políticos, quanto pelos seus candidatos individualmente, pois estes programas não passam de um filme recidivo cujas cópias ficam cada vez piores. E assim, me deparo enojado com uma apelação televisiva gritante, de baixíssima qualidade, repleta de más intenções e sobretudo, de um mau gosto enorme. A farsa-brega concebida e protagonizada por essa “troupe” de múltiplos canastrões e seus tolos coadjuvantes é um  "glamouroso baile de cobras" para disputarem, acirradamente entre si, qual deles deverá ser o mais grotesco, o mais ridículo, o mais inverossímil.

        Salvo raríssimas exceções, em suas falas lamentáveis, vejo todos os graves problemas do país, dos estados e dos municípios imediatamente solucionados tão logo sejam eleitos; todos promoverão, a partir de si mesmos, é claro, a tão esperada renovação da política e todos igualmente saberão apontar, uma a uma, as mudanças necessárias para “fazermos um país melhor”.

         Os minguados recursos nos orçamentos dos estados endividados teriam de se multiplicar em, no mínimo, cinco vezes para poderem executar o menu das "propostas" fartamente oferecidas no varejo dos discursos repetitivos e das promessas irresponsáveis. É o imutável e patético “déjà vu”, eivado de ações e emoções de uma falsidade tão cara-de-pau, como provavelmente devem ser as suas declarações para o imposto de renda.

        Em suas súplicas caricaturais e apelativas para a obtenção do voto, eles se exibem ao público em caminhadas e carreatas, colocam as mãos no peito simulando carinho, assumem ares de celebridade, fazendo “caras e beicinhos”, atirando beijos e acenando em saudações aos passantes ou mesmo a ninguém. Posam com crianças no colo, ao lado de trabalhadores, donas de casa ou com animais de estimação. Beijam idosos, cantam, dançam, abraçam, chutam bolas, mostram-se prestativos, fazem perguntas e respondem a qualquer indagação, fingindo intimidade e interesse.

     Nos inumeráveis atos de campanha, todas as pessoas serão grandes amigas para os incontáveis apertos de mãos, tapinhas nas costas, abraços, beijos e lágrimas de crocodilo.

      O “golpe de mestre”, o “crime perfeito”, a “grande sacada” neste jogo desigual, é sempre conseguirem postergar o desejo de realizações das pessoas e comunidades, alimentando quimeras, eternizando suas esperanças, fingindo renová-las toda vez que necessitam reaparecer para pedirem os seus votos. Depois se vão.

      Esse discurso evanescente é uma aposta vergonhosa em nossa "memória curta", em nossa educação precária que imbeciliza parte da população jogando-a na miséria e na ignorância a fim de produzirem essas anomalias vigaristas para depois, democraticamente, poderem  "roubar em nome do povo”.

         Nos programas de televisão, eles vão aparecendo, um após o outro, com ares de sabedoria e benevolência em expressões cândidas, neutras, ou severas, para anunciarem uma nova forma de fazer política ou para esbravejarem em defesa da ética, da transparência nas ações, da moralidade e da eficiência na gestão pública.

      Obter a atenção do eleitor exige mostrarem-se confiáveis diante das câmeras. Então eles concebem um espetáculo horroroso, onde aparecem figurinos exóticos, rostos rebocados de maquiagem mal feita, textos mal decorados “despejados” em poses congeladas além de objetos os mais variados para simbolizar às futuras intenções desses personagens recém saídos de um filme de Fellini.  

        Salvo umas poucas exceções, vemos desfilar uma infinidade de monstros multifacetados, malandros de boa pinta e falsos astros e estrelas dissimulados em seus minutos de fama. Falastrões despreparados, ingênuos ou mal - intencionados se exibem como animais amestrados, num hediondo desfile de nulidades, vomitando todo o tipo de sandices, mentiras e obscenidades ideológicas para as câmeras dos marqueteiros.  

          É a “porcaria” eletrônica invadindo as nossas casas. Estes programas não são mais um palco institucional para a apresentação de propostas reais e executáveis formuladas por pessoas de intenções sérias e preocupadas com os destinos do seu estado ou da sua cidade. Nem mesmo um espaço público de comunicação com o eleitor para a honesta prestação de contas de quem já detém um mandato e pretende disputá-lo novamente. Tampouco é um fórum capaz de inventariar as nossas mazelas e, com isso, encontrar caminhos possíveis. Estes elementos todos, da maior importância para o fortalecimento de uma democracia ainda tão frágil como a nossa, ali não aparecem mais.

        Do coquetismo midiático dessa fauna apatetada, emergirão figuras sinistras, como o monstro do lago para, bem longe dos interesses da população, cumprirem os seus papéis na tessitura das tramas dos grandes interesses econômicos e financeiros para depois, atirarem-se desesperadamente à rapinagem das sobras dos recursos públicos colocados à sua disposição.    

        Um breve olhar ao passado, para  a propaganda eleitoral desde os anos 1950 ou 1960 até os dias de hoje, e abstraindo a temporalidade para depois reproduzi-las nesta campanha, com mínimas adaptações de nomes, épocas, lugares ou promessas, constataremos, perplexos a mesma fórmula no discurso e na ação apelativa. Os conteúdos são praticamente iguais, muda apenas a tecnologia. Do popularíssimo “varre, varre vassourinha; varre, varre a bandalheira” da campanha de Jânio Quadros no início dos anos sessenta até os dias de hoje, a fórmula permanece a mesma.

         O espaço da propaganda eleitoral obrigatória transformou a tela num imenso lixão, carregado de detritos visuais para temperar a salada mista, servida em linguagem vídeo clipe, nesse mosaico de aberrações policromáticas.

         Vale tudo para vencer e eleger-se. Tudo! O “estômago de aço” da política aceita e digere qualquer coisa vinda dessa taumaturgia estelionatária. Definitivamente, essa partida não é para ser jogada pelos ingênuos de maldade ausente.

       Todavia, a passagem desse trem fantasma, paradoxalmente, nos mostrará uns poucos candidatos preocupados em realizar um mandato combativo, de enfrentamento às forças reacionárias, há séculos donas deste país. São mulheres e homens, e têm apenas no seu trabalho o aval para qualificá-los ao mandato postulado. Entretanto, dificilmente poderão competir com as campanhas milionárias, de financiamentos “sujos”, patrocinadas por quem saberá cobrar a conta, devidamente corrigida, na hora da distribuição do butim saqueado. O quadro é esse, e nele cada um cumpre o seu papel.
     A corrupção torna-se mera contravenção diante do que está em jogo. Não é por um dever cívico ou por amor á democracia que os maiores financiadores dos grandes partidos são as empreiteiras, os bancos, e outras grandes empresas, muitas vezes devedoras dos mesmos impostos que estamos obrigados a pagar.

      Num cenário de política mercantilizada, conduzida pelas mãos dos marqueteiros, os que poderiam renovar e trazer sua contribuição para um debate consequente, os que poderiam criar um ágon de desmascaramento e possibilitar a oxigenação dessa democracia desequilibrada, correm o sério risco de sucumbirem, tragicamente asfixiados, “neste atro subterrâneo”* do toma lá dá cá.

        Enquanto isso e, não obstante à teimosia e luta dos que ainda dizem não, um projeto de país vai sendo estruturado e tomado pouco a pouco por esses corruptos, pelo latifúndio, bancos e pelas grandes corporações.

   Na dança macabra dos espectros políticos, as incertezas povoam nossos medos, e parafraseando Nietsche, quanto mais olharmos para o abismo, mais o abismo olhará para nós.

        Triste sina essa, a de ficarmos perpetuamente nos reinventando.



* Verso de um poema de Augusto dos Anjos








Comentários

  1. Um alívio, quando a leitura projeta exatamente o que pensamos.
    Muito bom!! Bj.

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